INTELIGÊNCIA?
Escrito em 22/08/2026.
Hoje eu ia escrever sobre sorte, e a primeira música em que pensei para ilustrar o texto foi esta:[1]
A letra que conhecemos é uma versão, esta música é norte-americana, foi composta em 1927 por Mort Dixon e Harry M. Woods, no original ela tem mais ou menos o mesmo significado, enaltecendo a sorte que é encontrar um trevo de quatro folhas.
A nossa versão é de 1949, de autoria de um cantor/compositor chamado Nilo Sérgio, um fenômeno de sua época.[2]
Gostando ou não dela, há que se reconhecer que a música é histórica, o mundo a conhece e canta, até o Pernalonga, lá nos anos 1950:
Só para registro: no desenho original em inglês o Pernalonga (ali chamado Bugs Bunny), canta exatamente a mesma música (“I’m Looking Over a Four Leaf Clover”).[3]
Um clássico, histórica, o mundo inteiro conhece a música (ao menos quem nasceu há mais de 40/50 anos). Só que se você digitar no Google, ou pedir à Alexa que toque “Trevo de Quatro Folhas”, ela vai te responder com outra música, chamada “Trevo”, da dupla de cantoras Anavitória.
Vai lá, pode fazer o teste: para chegar na “verdadeira” Trevo de Quatro Folhas você vai penar bastante, só vai aparecer Anavitória.
Confesso minha ignorância/desconhecimento sobre a dupla Anavitória e sua música “Trevo”, e não vou fazer aqui nenhuma comparação.
O ponto aqui é outro: Como é que pode minha gente, o Google não conhece o clássico Trevo de Quatro Folhas?
Pois é amigos, assim funciona a IA, a (assim chamada) Inteligência Artificial. Ela não te responde o “certo”, ela te responde o que é estatisticamente mais recorrente, mais aceito, o que ela acha que é certo segundo os padrões de uma maioria.
Nada contra a IA (aliás, não dá para ser contra algo que existe). Eu compreendo os meus amigos que são tarados pela IA, assim como compreendo os meus clientes que, hoje em dia, me consultam apenas para ter uma “segunda opinião”.
A (assim chamada) Inteligência Artificial tem muitas, infinitas coisas positivas, principalmente no campo das ciências, da medicina, da agropecuária etc. Nessas áreas ela é mesmo uma maravilha.
Mas, ao contrário do que se imagina, ela não pensa, ela não é inteligente, aliás ela é bem burrinha!
Não sou eu que digo, não precisa acreditar em mim. Pergunte à própria IA se a expressão “inteligência artificial” se justifica, e ela vai te responder com todas as letras: A máquina não compreende o que diz ou faz, ela apenas calcula padrões matemáticos:

É aí que está o problema amiguitos. As estatísticas, os padrões matemáticos, são muito úteis e importantes para as ciências. Mas não para todo o resto!
Quando você consulta a (assim chamada) Inteligência Artificial, tenha em mente que para ela a Verdade é a verdade da maioria, a verdade preferida, ou a verdade mais conveniente, a verdade menos incômoda.
Por isto fiquei escandalizado ao saber que uma colunista de um Grande Jornal confessa com orgulho que seus textos(!) são feitos pela (assim chamada) Inteligência Artificial!!![4] E mais escandalizado ainda de saber que hoje em dia livros são escritos pela (assim chamada) Inteligência Artificial!!![5]
Recentemente, bem na minha frente, uma amiga fez uma pergunta à (assim chamada) Inteligência Artificial, e a resposta era obviamente errada. E eu dizia, quase ao desespero: Tá errado, tá errado! Mas ela acreditou na máquina e não em mim.
Sócrates, o Grande Filósofo, dizia: “Só sei que nada sei”. Ele não buscava respostas, o que ele valorizava era a dúvida. A ponto de ser contra a escrita, porque entendia que “A escrita fecha o conhecimento, servindo-o de forma acabada, amarrando o seu autor ao estrito contexto de afirmações inamovíveis: se essas afirmações contemplam o erro, a escrita não só o perpetua como garante a sua transmissão.”[6]
Sócrates tem razão, os erros escritos pela (assim chamada) Inteligência Artificial se transformam em verdades inquestionáveis. Hoje, de acordo com a (assim chamada) Inteligência Artificial, a música “Trevo de Quatro Folhas” não existe. Ou melhor, existe, mas se chama “Trevo”, é outra música, e é da dupla Anavitória.
Repito: não sou contra a (assim chamada) Inteligência Artificial, só não concordo que ela tenha este nome (não sou o único!)[7] e me revolto com a confiança cega que as pessoas têm nas suas respostas.
Por isso, em princípio, eu não acredito na (assim chamada) Inteligência Artificial. Eu sempre duvido.
Afinal, como dizem os versos finais daquela música famosa: O que é um homem, o que ele tem senão ele mesmo? Ele não tem nada se não puder dizer o que ele mesmo pensa, em vez das palavras de alguém que se ajoelha [diante da IA?].[8]
Não gosto de dar conselhos a quem não pediu, mas hoje vou me atrever: Lembre-se sempre que a (assim chamada) Inteligência Artificial não é inteligente, ela é burra, apenas reproduz o que é estatisticamente mais recorrente.
E te peço, aos prantos: Diante de qualquer resposta dela (da assim chamada), use a sua inteligência uma vez só, conte ao menos até três, se precisar conte outra vez, mas pense outra vez. Seja como Sócrates, duvide![9]
Fica aqui o meu compromisso: todas as bobagens que você ler no Tem Musica Pra Tudo serão minhas mesmo, pertencem à minha Estupidez Real, e nunca, jamais, à (assim chamada) Inteligência Artificial.
[1] Fernanda Takai, “Trevo de Qautro Folhas” (Nilo Sérgio, Mort Dixon, H. Woods) in Luz Negra, 2009.
[2] Conheça o Nilo Sérgio em https://www.musicaehistoria.com.br/2021/06/16/nilo-sergio-100-anos/
[3] Confira: https://www.youtube.com/watch?v=1qL-Rr_Jrno
[4] É verdade!: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c99jv8vl1z2o
[5] É verdade! https://oglobo.globo.com/cultura/livros/noticia/2026/07/29/como-livros-escritos-por-ia-estao-invadindo-as-livrarias.ghtml e https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/livros-escritos-por-inteligencia-artificial-qual-o-limite-do-uso/
[6] J.Costa em “De Sócrates a Platão : entre a Ágora e a Academia “ – veja em https://web.archive.org/web/20120614171328/http://ocanto.esenviseu.net/apoio/conjunto.htm)
[7] Leia: https://dialogosembalados.com.br/blog/inteligencia-artificial-pode-ser-chamada-de-inteligencia/
[8] Frank Sinatra, “My Way” (Paul Anka/Jaques Revaud/Gilles Thibaut/ Claude François) in Nothing But The Best, 2008…
[9] Sophie Charlotte, “Sua Estupidez” (Roberto Carlos, Erasmo Carlos) no primeiro capítulo da novela “O Rebu” da Rede Globo, 2014.
Que legal Marcelo!
É sempre um grande imbróglio (o em português e não o italiano), quando vai se falar do que é inteligência. Se for discriminar entre inteligência, sabedoria e cultura então… “vixi”, aí vira um verdadeiro casino (o em italiano, e não o em português, rsrsrsrs.)
Ainda me lembro quando um professor meu definiu “inteligência” como “a capacidade para resolver exercícios não aprendidos”, e sinto que isso abriu uma nova e inteira partição no winchester do meu computador mental, rsrsrs.
Aí percebi que inteligentes mesmo, salvo exceções, são as crianças. As bem pequenas, que resolvem sem experiência prévia e fazem coisas que os “ensinados”, presunçosos que são, classificam como não-inteligentes.
E toma-se aquele que é acumulado de informação, por inteligente, E vai discutir com aquele que leu no Dr Google, rsrsrsrsrsrs….
Um conto oriental descreve o momento em que um discípulo vai procurar seu mestre e lhe pergunta:
-Mestre, qual o segredo mais profundo da felicidade?
Ao que, ele responde:
– O segredo mais profundo da felicidade depois de uma vida inteira de meditação está em não discutir com pessoas ignorantes.
– Não acredito que o segredo inteiro da felicidade seja simplesmente isso!!!! Não é possível!!
Ao que ele serenamente responde:
– Tem razão.
Grande abraço e obrigado por sustentar este espaço tão bacana que é o TMPT.
😉🙏🏼
Kkkk… muito bom!
Mas duvidar sempre é bom.
Um “sera?”, no momento certo muda o rumo de uma história.
Bj 😘