REVOLUCIONÁRIO
Escrito em 06/06/2026.
Semana passada falei sobre Getúlio Vargas, o ditador que se tornou presidente através de um golpe de estado em 1930, depôs o presidente da república Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes, que tinha acabado de ser eleito.
O golpe ficou conhecido como a “Revolução de 1930” porque, quando o golpe dá certo, ele passa a se chamar Revolução.
Revolução, segundo o Aurélio, é a “transformação radical e, por via de regra, violenta, de uma estrutura política, econômica e social”.[1]
Sim, revolução e violência “via de regra” andam juntas, basta ver a mais famosa delas, a Revolução Francesa, que em nome da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” executou mais de 40.000 pessoas.[2]
Revoluções, naturalmente, são feitas por revolucionários.
Os Beatles são considerados revolucionários. Porém, rejeitavam qualquer violência, como deixaram claro na música chamada, ora vejam, Revolution:[3]
Entre as milhares de guilhotinadas da Revolução Francesa se encontram, claro, as cabecinhas do rei (Luís XVI) e da rainha (Maria Antonieta).
Maria Antonieta ficou famosa por ter respondido aos súditos, que nos portões do castelo reclamavam da falta de pão: “Se não tem pão, que comam brioche”.
Chocante né? Só que ela nunca disse isto! Trata-se de uma das maiores fake news da história.[4]
Falando em pães e brioches. Quase todo dia almoço em uma padaria que serve uma refeição por quilo que é mais cara do que boa, mas para mim é conveniente porque fica pertinho do escritório.
Por conta desses almoços posso atestar que 10 entre 10 pessoas que almoçam sozinhas passam o tempo todo da refeição consultando, lendo, assistindo ou até mesmo conversando no celular. É uma cena típica: em geral apoiam o aparelho na lata de refrigerante e ficam olhando para ele enquanto comem (na verdade são 9 entre 10 pessoas, eu não faço isto).
Vejo isto todo dia, e todo dia fico chocado.
Nessa mesma padaria, um dia desses, eu estava na fila do caixa e um conhecido, na minha frente, comentou: “olha só o fulano [um amigo em comum] me mandando mensagem…”.
Fiquei intrigado pois ele não estava com o celular na mão, então perguntei: “Ué, como você sabe?”. E então ele me mostrou o relógio que trazia“no pulso” a mensagem do celular que estava no bolso. Se exibiu cheio de orgulho, explicando que com o relógio ele não perdia nada, lia “na hora” toda e qualquer mensagem sem nem precisar do celular.
Que o Sábio Senhor me livre de um dispositivo como este.
Voltando ao tema do título.
As revoluções não acontecem “de repente”, nós é que demoramos para percebê-las. Elas vão se aproximando, ganhando espaço, e quando damos conta, estão bem aqui na nossa cara:[5]
Quando desço para o almoço eu não levo o telefone.
Quando vou correr no parque, idem. E quando saio no final de semana, se conheço o caminho, também não levo o celular.
Esta é a minha revolução.
[1] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira in “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, 4ª. Edição, 2009, Ed. Positivo, p. 1757
[2] Detalhes in https://pt.wikipedia.org/wiki/Terror_(Revolu%C3%A7%C3%A3o_Francesa)
[3] The Beatles, “Revolution” (John Lennom, Paul McCartney) in The Beatles (The White Album, disc 2), 1968.
[4] Veja em https://pt.wikipedia.org/wiki/Que_comam_brioche
[5] David Byrne, “The Revolution” (David Byrne) in Look into the Eyeball, 2001.