VERDADE

VERDADE

07/09/2025 9 Por Marcelo Pantoja

Escrito em 06/09/2025.

 

 

O que é verdade? Onde ela está?

 

Os filósofos, que adoram viajar, têm mil teorias a respeito, e como não tenho paciência para ler tudo o que eles disseram e dizem (quem tem?), acho mais prático ir direto a Nietzsche, para quem ela (a verdade) simplesmente não existe, é uma ilusão!

 

Ou Protágoras. Protágoras foi o grande nome do sofismo. Sofista é o cara que tem o talento de falar tanto contra como a favor de determinado tema com a mesma veemência e (aparente) consistência, a ponto de convencer qualquer um. Para ele pouco importa a verdade, o que importa é ganhar o debate. A máxima de Protágoras era “O homem é a medida de todas as coisas”. Traduzindo: a verdade é subjetiva, cada um tem a sua.

 

Esqueçamos os filósofos, aqueles viajandões, e vamos ao velho e bom Aurélio: para ele verdade é “conformidade com o real; exatidão, realidade”[1].

 

Não sei o quanto isto ajuda, afinal, o que é real ou exato? Vixe, assim não vamos chegar a lugar nenhum.

 

Um ditado famoso (e verdadeiro) sobre a verdade diz que “na guerra a primeira vítima é a verdade”. Esta frase é atribuída, indistintamente, a Ésquilo (dramaturgo da Grécia antiga), Philip Snowden (um político britânico do século passado) e Samuel Johnson (um escritor inglês do século XVIII). Quer dizer: não se sabe nem qual é a verdade sobre o criador da frase sobre a verdade.

 

Se serve de consolo, a pesquisa não foi de todo inútil. Procurando a verdade (não na vida, no dicionário), descobri que a palavra vero também existe na língua portuguesa (para mim só existia em italiano, vejo a imagem de um velho carcamano contando uma mentira e dizendo, na maior cara de pau: “è vero, figlio mio…”).

 

Isso mesmo, a palavra está no dicionário brasileiro.

 

vero: Adjetivo.
1.Real, exato, verdadeiro.[2]

 

O superlativo de vero, então, deve ser veríssimo, significando algo muito muito verdadeiro. O que é bastante irônico, já que em 2011 o próprio Luis Fernando Verissimo disse, em entrevista à Playboy (saudades da Playboy!), que “De cada cinco textos atribuídos a mim na internet, ao menos quatro não fui eu que escrevi”.[3]

 

Então, nem tudo que é atribuído a Verissimo é, de fato, vero, muito menos veríssimo.

 

O que é verdade, e absoluta, é que ler Luis Fernando Verissimo (no livro ou no jornal, não na Internet!) foi sempre, invariavelmente, uma delícia. A notícia da morte dele, na semana passada, foi verdadeiramente triste.

 

Afora as crônicas e tirinhas que ele publicava nos jornais, Luis Fernando Verissimo vendeu mais de 5,6 milhões de livros, alguns deles para mim.

 

Muito antes de virar escritor, Luis Fernando Verissimo queria ser músico de Jazz, estilo pelo qual era apaixonado desde jovem. Queria tocar trompete, mas achou muito difícil e resolveu tocar saxofone (a tá, sax deve ser bem fácil, né?). E tocava mesmo![4]

 

 

 

 

Este grupo que ele integrava se chama Jazz 6. Se intitula o menor sexteto do mundo (porque só tinha cinco componentes), e gravou um punhado de discos.

 

Quando era bem jovem, e se encantou pelo trompete, LFV queria ser este cara aqui:[5]

 

 

 

 

Algumas das frases atribuídas a Luis Fernando Verissimo que, de fato, ele escreveu ou falou:[6]

 

“Você só sabe até onde pode ir quando já foi.”

 

“Resignemo-nos à ignorância, que é a forma mais cômoda de sabedoria.”

 

” Às vezes, a única coisa verdadeira em um jornal é a data”

 

Voltando à verdade: se você não acredita em Nietzsche, tem mais é que ir atrás dela (mesmo que seja só a sua verdade). Vai, sem direção, com atenção para escutar o que você quer saber de verdade.[7]

 

 

 

 

Mais uma frase do LFV, que ouvi ele dizer em uma entrevista: “A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça”.

 

Aconteceu, que merda.

 

 

[1] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira in “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, 4ª. Edição, 2009, Ed. Positivo, p.  2049.

[2] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, idem, p. 2052.

[3] in https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2011/12/06/de-cada-cinco-textos-atribuidos-a-mim-na-internet-ao-menos-quatro-nao-fui-eu-que-escrevi-diz-verissimo-a-revista-playboy.htm

[4] Jazz 6, “A Rã” (João Donato)

[5] Louis Armstrong, “La Vie En Rose” (Louiguy / Piaf) in Coleção Folha Clássicos do Jazz, Vol. 1, 2008.

[6] in “Veríssimas – frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo”  (Luis Fernando Verissimo ; organização Marcelo  Dunlop), Editora Objetiva, 2016; e https://www.jusbrasil.com.br/noticias/as-vezes-a-unica-coisa-verdadeira-num-jornal-e-a-data/100643935

[7] Marisa Monte, “O Que Você Quer Saber de Verdade” (Marisa Monte, C. Brown, Arnaldo Antunes) in O Que Você Quer Saber de Verdade, 2011.