AMIÚDE

AMIÚDE

20/07/2025 6 Por Marcelo Pantoja

 

Escrito em 19/07/2025.

 

 

Entre dezenas de maravilhas deste compositor, “Chão de Giz” é uma das minhas preferidas entre as músicas do Zé Ramalho.

 

Acho fantástico que ele use uma palavra tão incomum como “amiúde” em uma música, e é justamente a parte que eu gosto mais; se estou ouvindo sozinho (ou bêbado) não resisto a berrar com o cantor: A-MI-Ú-DEEEEEEE[1]

 

 

 

 

 

Anos, uma vida inteira gritando a-mi-ú-deeee, e só recentemente descobri o real significado desta palavra.

 

Eu achava que “amiúde” era algo feito aleatoriamente. Mas não, é algo feito repetidamente, frequentemente![2]

 

Só há poucos dias me dei conta que esta palavra tão exótica está em outra música histórica, uma canção que ouço há muito mais tempo e por que não dizer, muito mais amiúde que a própria Chão de Giz. Como não percebi isto antes?

 

Vou deixar para você mesmo(a) descobrir onde está Wally:[3]

 

 

 

 

 

“Geni e o Zepelim” – que na minha infância era só motivo para risadas e gracinhas, ainda mais que a mãe de meus queridos amigos Hércules e Ulisses se chamava (ainda se chama) Geni – na verdade conta uma história beeem triste e reveladora de qualidades tão presentes e apreciadas na nossa sociedade, tais como a hipocrisia, a ingratidão e a desfaçatez.

 

Foi também só muito recentemente que eu soube, pelo meu amigo Oscar, que “Geni e o Zepelim” é inspirada em um conto de 1880 do escritor francês Guy de Maupassant. O nome do conto (e da protagonista) é “Bola de Sebo”, e a história é basicamente a mesma da Geni: uma prostituta que literalmente salva todo mundo e depois é menosprezada por quem salvou, afinal, ela é apenas uma puta.

 

Claro que eu não fazia mínima ideia de quem foi Guy de Maupassant, mas agora tenho um livro cujo título é “Os Melhores Contos de Guy de Maupassant”, que realmente são ótimos mas, pasmem, o livro não tem o conto “Bola de Sebo”! Tive que procurar na Internet mesmo.

 

Como sou ignorante. Até outro dia não sabia o que é amiúde, nunca tinha ouvido falar em Guy de Maupassant nem na prostituta Bola de Sebo. E como se não bastasse comprei um livro com mais de 100 contos sem antes conferir se o que eu queria estava entre eles.

 

Mas ignorância mesmo – infelizmente demonstrada por muitos amigos meus – é deixar de ouvir Chico Buarque, o Maior de Todos, por causa de política.[4]

 

 

 

 

[1] Zé Ramalho, “Chão de Giz” (Zé Ramalho) in Fagner e Zé Ramalho ao Vivo, 2014.

[2] Aurélio Buarque de Holanda Ferreira in “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, 4ª. Edição, 2009, Ed. Positivo, p. 121.

[3] Chico Buarque, “Geni e o Zepelim” (Chico Buarque) in Ópera do Malandro, 1979.

[4] Chico Buarque, “João e Maria” (Sivuca, Chico Buarque) in Carioca Ao Vivo, Disco 2, 2007.